5_ Jacó em Canaã. Sua permanência
ali — Gênesis 33:18-20; 34:1-31; 35:1-29; 37:1-36
Ao avançarmos nas considerações acerca das experiências de Jacó,
impressiona-nos observar como o homem procede em face de toda a bondade de
Deus. Depois de toda a manifestação de amor e bondade, Jacó fixa-se em Sucote,
e isso contra todos os princípios que norteiam (orientam) a vida do peregrino
de Deus. Deus o havia chamado para Betel (Casa de Deus) e não para Sucote
(Cabana). Edificar casas e fazer palhoças para o gado (v. 17) era a atitude de quem não
havia entendido o chamado de Deus, e muito menos sua relação com Ele — nada
podia ser mais claro. Sucote não era o lugar de Jacó e muito menos o lugar que
Deus lhe designou. É
lamentável ver como o coração humano contenta-se com uma posição inferior
àquela que Deus lhe deu.
Em Filipenses 3.20 lemos que a nossa pátria está nos
céus. Em Hebreus 3.1 diz que participamos de uma vocação celestial, por isso é
sempre oportuno perguntar a nós mesmos: “Quais os motivos pelos quais me
afadigo a cada dia em meu fútil viver?”. Onde e para que tenho edificado a
minha casa? Em Mateus 6.19-21 o Senhor Jesus nos ensina acerca da maneira de
trabalharmos e em função de que trabalharmos. Diz o Senhor: “Não ajunteis tesouros na terra,
onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e
roubam. Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem,
e onde os ladrões não minam, nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro,
aí estará também o vosso coração”.
Em
seguida lemos que Jacó chegou à cidade de Siquém (Ombro) são e salvo (v. 18 e Deut. 32.12) e
armou sua tenda junto à cidade. Aqui podemos lembrar-nos de Ló quando se
dirigiu a Sodoma, separando-se de Abraão (Gen. 13.12) e comprou um campo ali. É importante observarmos
que os planos de Jacó obstruem os planos de Deus. Deus o tem chamado para Betel
— para Sua casa — mas Jacó edifica sua própria casa em Sucote; e saindo dali
arma uma tenda e compra um campo em Siquém. Significando “Ombro” sua estadia ali ser-lhe-á uma penosa
carga a carregar. Gravíssimas coisas aconteceram a este homem nesse lugar em
função de sua atitude. Lemos da humilhação de Diná e a inconsequente vingança de seus
irmãos, fatos que causaram muita aflição ao coração de Jacó. Mais tarde vemos
que Jacó envia José a Siquém para ver como estavam seus irmãos; eles o tomaram
e o venderam (Gen. 37.13-14) acrescentando maior dor e angústia a Jacó.
Mas podemos
perguntar: “Siquém não está na terra de Canaã?” Sim, isso é verdadeiro, mas considere que Deus não o chamou
para aquele lugar, mas sim para Betel. De tudo isso podemos aprender que formalismos religiosos e
aparências de fé sem obras, não satisfazem a Deus, podendo terminar em graves consequências sobre todos que assim
procedem. O coração obediente jamais hesitará em obedecer às ordens de Deus. O
que mais nos impressiona é como o coração humano age em vista de toda a
fidelidade Divina. Bem disse Jeremias: “Enganoso é o coração, mais do que
todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jer. 17.9).
Quando Deus tirou Ló
das chamas de Sodoma e o enviou ao monte para salvar a sua vida, ele disse:
“Não Senhor, pois receio que o mal me apanhe e eu morra” (Gen. 19.17-19). Assim
é o homem em todos os períodos da sua história. Jacó não somente armou a sua
tenda comprando um campo em Siquém, mas edificou também um altar. Temos assim,
em relação a Siquém, três motivos para ele estar ali:
1o - Um
habitante — Armou sua tenda junto à cidade (v. 18)
2o – Um
proprietário — Comprou um campo (v. 19)
3o – Um
religioso — Edificou um altar (v. 20)
Tudo aquilo que passa
perante os nossos olhos é o resultado direto de olhar sem a direção de Deus. Assim foi no passado com Ló e agora acontece
o mesmo com Jacó. Certamente alguma coisa o atraiu, e com a atração a cobiça e a
possessão. Para justificar-se ainda temos um altar, como que dizendo: “Estou
servindo ao Senhor”. Ainda que o nome do altar pudesse ser: “Deus, o Deus de
Israel”, tudo está permeado de erro. Analisando as revelações que temos até
aqui, não percebemos nenhuma revelação de Deus como o Deus de Israel. Por mais
maravilhosa que possa parecer esta expressão, até aqui Ele sempre se manifestou
como o Deus de Betel. Estar em Siquém contrariava este princípio, e para
manter a profissão necessitava de um titulo.
Mas,
em tudo isso, temos o homem no seu triplo caráter de ação, ou seja: com o mundo, com a carne e com a religião.
É a concupiscência dos olhos e da carne unidas à soberba da vida. Não é isso
que percebemos na chamada religião? Qual o motivo de tantas siglas religiosas?
Será que Deus foi dividido e permanece dividido? Graças damos ao Senhor, pois
Ele é único em todos os sentidos e, portanto, impossível que seja dividido ou
mesmo acrescido.
Admitimos
que é um grande privilégio conhecê-lo como nosso Deus, mas isso será ainda maior quando o reconhecemos como o Deus de Sua
Casa, e nós, pela fé, como parte desta Casa. Não pode ser dimensionado o
privilégio de conhecermos a Cristo como a Cabeça da Igreja que é o seu corpo, e
nós, como membros deste maravilhoso corpo. São estas revelações e
conhecimentos que nos tornam mais próximos de Deus e capazes de discernir a
importância da unidade do corpo de Cristo, assim como o privilégio de sermos
usados por Ele, para manifestar, pelo Espírito Santo, toda a Sua Glória para a
edificação do Seus povo redimido.
O conhecimento de
Deus nos leva a desarraigarmo-nos deste mundo perverso que é o império de Satanás (Gl. 1.4) nos ligando a
Ele para fazermos em tudo a Sua vontade. A falta deste conhecimento nos levará
a envolvermo-nos com as coisas desta vida e nos levará a colhermos frutos amargos
durante todo o nosso viver aqui nesse mundo. Foi justamente esta e experiência
de Jacó em Siquém. Vemos que Diná
foi humilhada, e seus irmãos assassinaram covardemente os habitantes
daquela cidade. Podemos dizer que estas cicatrizes jamais se apartaram da
consciência de Jacó, pois até mesmo na hora da sua morte ele foi capaz de fazer
menção deste fato triste em sua vida (Gen. 47.5-7). Medo, pavor e vergonha
foram tão somente os resultados da sua estadia em Siquém (Gen. 34.1-3,30).
O que há de mais belo
e fascinante nas páginas inspiradas é o amor e a paciência de Deus para com
este homem. Devemos exaltar a graça de Deus que foi capaz de descer até nós em
Cristo Jesus quando nos encontrávamos prostrados, abatidos e sem ânimo para
continuarmos. Foi assim no passado com Jacó, e é assim no presente conosco.
Quando Jacó disse a seus filhos: “Vós me
afligistes, vós me fizestes odioso, eles me matarão” (v. 30), Deus lhe disse: “Sobe a Betel, habita ali e fazes um
altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú teu irmão (Gen.
35.1).
Todo louvor e toda glória sejam dadas a
Ele pelos seus planos e caminhos para conosco!!
Não posso prosseguir
estas considerações sem antes falar dos nossos filhos, pois o autor destas linhas
não está alheio quanto à minha e à vossa responsabilidade diante do Senhor para
com os nossos filhos. Observe que Jacó está a chorar e lamentar pelos seus
filhos (v. 30; Jer. 31.15; Mat. 2.18). Então perguntamos:
•
Onde estão os nossos filhos?
•
O que estão fazendo?
•
Para onde estão caminhando?
•
Qual foi o resultado do teu trabalho na
vida dos teus filhos?
•
Teu dinheiro, tuas propriedades — tudo
que você possa ter adquirido — foram capazes
de aproximá-los de Deus?
Sei que são perguntas
que envolvem uma certa gravidade, mas sei também que pais e mães estão a
lamentar e chorar por causa de seus filhos, simplesmente porque os apoiaram em
atividades e negócios ilícitos, sem os ensinar a ter o temor do Senhor. Oposto
a esta necessidade básica, deram-lhes exemplos negativos e os apoiaram em seus
maus caminhos, razões estas que os induziram a permanecer emaranhados nos seus
pecados, conduzindo-os para longe de Deus. Em muitos casos, os pais serão os
culpados eternamente pela ruína e perdição de seus filhos.
Assim foi com Jacó no
passado e pode ser conosco no tempo presente. Deixo-vos esta solene advertência
esperando que ela possa à Luz da presença de Deus, nos esclarecer para que possamos pesar na balança da
justiça Divina todos os nossos atos, especialmente aqueles nos quais nossos
filhos serão amplamente beneficiados.
Voltando ao nosso tema, encontramos mais uma vez o Senhor vindo ao
encontro das aflições de Jacó e dando-lhe mais uma vez, a receita da
bem-aventurada posição. Não pode haver melhor alívio para o coração aflito do
que estar nas dependências da Casa de Deus. Davi e os filhos de Coré nos dão
testemunhos de como é agradável tal lugar (Sl. 27.4; 84.1-12; 122.1).
Disse o Senhor a Jacó: “Levanta-te, sobe a Betel, habita ali e faze um altar ao Deus que te apareceu quando
fugias da presença de Esaú, teu irmão” (Gen. 35.1). Havemos de considerar que
cinco coisas importantes são comunicadas aqui a Jacó:
•
Levanta-te — É preciso Disposição para levantar.
•
Sobe a Betel — requer-se Prontidão para
atendimento do mandamento.
•
Habita ali — Deus dará Provisão e comunhão.
•
Faze
um altar — o lugar da Adoração.
•
Ao Deus que te apareceu — O alvo; a razão; o
alcance.
Levanta-te — Há de se considerar que ninguém pode conhecer plenamente a vontade de
Deus, sem que esteja disposto a obedecê-lo (I Sm. 15.22). Obediência é tudo que
o Senhor requer de nós. Foi pela desobediência de Adão que o pecado entrou no
mundo, e foi também pela obediência do Senhor Jesus Cristo que a justificação
foi alcançada para todo pecador (Rm. 5.19). Obedecer é o reconhecimento prático
de que Ele é Senhor, e isso dignifica o Seu nome e o engrandece. Por isso
quando Ele diz alguma coisa, espera que nós o obedeçamos sem que haja qualquer
constrangimento.
Sobe a Betel — Quando Deus nos chama, certamente Ele deseja alguma
coisa de nós, ou certamente tem alguma coisa para nós. Jacó está aflito em
Siquém, mas o Senhor tem um refugio, um alívio para ele em Betel (Sl. 9.9);
Ele quer livrá-lo dos seus temores (Sl. 34.4). Portanto, estar pronto para
obedecê-lo será a única atitude sábia deste homem.
Habita ali — A chamada de Deus tem como objetivo prover as
necessidades do seu servo e trazê-lo para junto de si, para que possa ter
comunhão com Ele. Quando Deus veio em Cristo ao nosso encontro, não foi somente
para nos livrar da perdição. Por mais maravilhoso que isso possa ser, Ele veio
para nos levar para Si mesmo, para que possamos estar diante dele para sempre
(Jo. 14.2-3). Infelizmente o homem não tem compreendido este propósito de Deus
para com ele. Jacó apreciou muito pouco este ato de bondade de Deus;
esqueceu-se dos cuidados do Senhor para com ele, pois no verso 16 lemos: “Partiram de Betel”
(Dt. 6.12; 32.18; Jó 8.13). Sem qualquer dúvida, a chamada para Betel visava
prover as suas necessidades e como consequência ter comunhão com ele.
Faze
um altar — Nas páginas
inspiradas o altar é a marca do adorador. Não pode haver adorador sem altar, e
nem altar sem adorador. Outra coisa importante é que o altar exige sacrifício,
pois sem sacrifício não há oferta, e sem oferta não há sacrifício e,
consequentemente, não há adoração. Do adorador requer-se o que oferecer. Ele
não deve vir de mãos vazias. Foi por isso que Jacó disse aos seus: “Lançai fora
os deuses estranhos que há em vosso meio, purificai-vos, e mudai as vossas
vestes. Levantemo-nos e subamos a Betel” (vs. 2-3).
É preciso sacrifício
para que haja adoração. Não sei o que devemos sacrificar, mas sei que se
desejamos adorar ao Senhor, devemos ter o que oferecer. Seja o que eu mais
quero, aquilo que alcancei com dificuldade, ou aquilo que eu mais amo — tudo que possa ser um obstáculo entre mim e Deus — tem que ser sacrificado, para que possamos adorá-lo
(Mt. 10. 37-38).
Ao Deus que te
apareceu — No verso 5 lemos:
“Tendo eles partido, o terror de Deus invadiu as cidades”. Não foi o
terror dos filhos de Jacó, por causa da sua violência, mas verdadeiramente o
terror de Deus. Esta é pelo menos a terceira vez que o Senhor mostra a Jacó o
quanto ele pode confiar nele. A primeira vez foi quando Labão, seu tio, saiu no
seu encalço (31. 23-24); a segunda quando se encontrou com Esaú, seu irmão
(32.11; 33.4); a terceira diante das cidades circunvizinhas. Assim é o Senhor.
Nele podemos confiar (Sl. 27.1-2; 56.3).
Assim chegou — a Betel — e edificou
um altar e lhe chamou “El Betel”. Vejam como este altar é diferente do
altar de Siquém. Este foi edificado
numa base mais sólida, pois Betel é a Casa de Deus, enquanto Siquém nos
é apresentado como um lugar de impureza e idolatria.
Em Gênesis 12.6-7 lemos que Abraão edificou um altar nas
proximidades desta cidade, mas não encontramos nenhum indício de que haja
prestado algum culto nesse altar, a não ser a menção de que este foi erigido ao
Deus que lhe aparecera. Mas quando aproximou-se de Betel, ali edificou um altar ao Senhor e
então invocou o nome do seu Deus, o Senhor. Isso é muito diferente e está
baseado numa apreciação superior àquela. Uma coisa é sabermos algo acerca do
Deus que nos aparecera, mas outra muito diferente é conhecê-lo como nosso
Senhor e Deus. Esta distinção é dada somente àqueles que estão na Sua Casa.
Eis a razão porque o
altar de Betel é infinitamente mais elevado que o de Siquém, visto que está
erguido nos princípios que regem e norteiam (orientam) a Casa de Deus.
Podemos falar de Deus, mas se o lugar
onde falamos é indigno do Seu nome, se o que nos cerca não é compatível com a
santidade de Deus, seremos apenas cristãos formais (Jo. 4.22), destituídos do
conhecimento do Senhor e do que seja prestar-lhe culto. “A santidade convém à
Casa do Senhor, para todo o sempre”, estas são as palavras do inspirado salmista (Sl. 95.3).
Somente o
conhecimento de Deus produzido pelo ministério do Espírito Santo, pode conduzir
o pecador a tal discernimento. “Deus é Espírito” (Jo. 4.24), e somente o homem
espiritual possui capacidade para conhecer Deus e prestar-lhe adoração de
acordo com a Sua dignidade. É por isso que lemos: “Deus procura
adoradores que o adorem em Espírito e em verdade” (Jo. 4.23-24).
São estes fatos que
manifestam a diferença da nossa compreensão de Deus e do verdadeiro culto.
Certamente foi por esta causa que em Deuteronômio 12 Deus insistiu em mostrar
aos Seus servos o lugar do verdadeiro culto, como também advertiu-os quanto ao
fato de não ser em qualquer lugar, mas no
lugar que Ele escolher.
Portanto, não deve ser em qualquer lugar e de qualquer maneira.
Necessitamos de condições espirituais que preencham os quesitos da santidade
de Deus. Para Jacó este lugar era Betel, e não Siquém.
Outro fator
importante nesse capítulo de Gênesis, é que ele é o único lugar em toda a Bíblia
a falar de 4 mortes, em momentos diferentes numa mesma família. Três mortes
físicas, e uma morte espiiritual.
•
Morreu Débora — ama de Rebeca (v. 8)
•
Morreu Raquel — sua esposa amada, preferida
(vs. 18-19)
•
Morreu Isaque — seu pai (v. 29)
O sepultamento e o
lugar do sepultamento de todas estas pessoas estão relatados com detalhes no
capitulo 35 deste livro. Cada uma
dimensionada conforme a sua importância na vida deste patriarca. Foram três
mortes que tocaram profundamente as suas afeições e que tiveram grande impacto
na sua vida, pois lemos em verso 09 que vindo ele de Padã-Arã Deus lhe apareceu
e o abençoou. Isto certamente é uma referência ao encontro relatado no capitulo
32:28 onde Deus mudou o seu nome de Jacó para Israel. Mas é aqui depois da
morte de Debora que o Senhor lhe chama Israel (verso 10c).
DÉBORA — Ama de Rebeca, sua mãe. Certamente foi a pessoa que cuidou dele quando
criança, sendo esta mulher de grande significado para ele. Quando partiu para
Padã-Arã, nunca mais viu a sua mãe, e Débora certamente o fazia recordar dela
e preenchia o vazio ficado com a ausência daquela. Assim podemos entender que
esta mulher tinha um lugar especial na vida de Jacó, e era muito importante para
ele. Mas segundo os direitos de Deus estes laços devem ser quebrados e Jacó
deve aprender que tudo aquilo que constitui um laço para ele, ainda que seja
uma afeição natural, deve ser retirada, assim lemos da morte de Debora que
simbolizava estas afeições.
RAQUEL — Sua esposa amada, pela qual submeteu-se à escravidão de Labão, seu tio,
por um período de 14 anos, representava para ele as mais profundas afeições
que emanavam da sua alma por ela, o seu amor. Ninguém pode descrever a
importância desta mulher na vida de Jacó, seu amor, sua ternura, seus mais
profundos afetos. A luta desta mulher em prover descendentes para seu marido, a
humilhação que sentiu pela esterilidade, tudo isto são marcas profundas na vida
deste patriarca, e mais ainda, a luta até a morte no nascimento do segundo
filho; o nome dado ao filho “Benoni” o filho da minha dor, são fatos que
deixaram marcas inapagáveis para este homem. Podemos imaginar que durante toda
vida futura, cada vez que olhava para esta criança, aquelas cenas vinhas a sua
mente e ao seu coração. Quantas lições lhe foram ensinadas pelo Senhor durante
os anos vividos após estes acontecimentos das mais variadas formas.
ISAQUE — Seu querido pai. Podemos pensar: “É um golpe duro demais para um homem
mortal perder em tão pouco tempo três pessoas tão amadas e de tão grande valor
e apreço. Se colocarmos as afeições do homem na frente, certamente não
pensaremos de outra maneira. Esta é a nossa maneira de avaliar. Mas quando os
interesses de Deus forem as nossas intenções, assim como o bem espiritual
deste homem, compreenderemos que não podemos nos deter nesta maneira de pensar.
Aprenderemos que Deus ama os seus e trabalha incessantemente para seu bem e
prazer, jamais agirá em detrimento daqueles que tanto ama e por quem deu seu
amado Filho; ainda que, não compreendamos seus intentos (Heb 12:11).
Passaremos por cima
destas cenas para descobrirmos os objetivos de Deus a serem manifestos na vida
deste patriarca. É importante realçar que todas as atitudes de Deus, de acordo
com a Sua vontade, bem como todos os pactos que Jacó fez com Ele, não surtiram
os efeitos propostos. Jacó estava sempre a falhar e a impor prerrogativas.
Como inverter então esta situação? Não há outro recurso, a não ser a morte
deste homem. É aqui que encontramos a quarta morte que fora referida — a morte de
Jacó mesmo, a morte do ego.
Enquanto o homem não for levado ao fim
de si mesmo, Deus estará impedido de agir, sendo o Senhor da vida de qualquer
homem. Grande proveito teremos se aprendermos que a intenção de Deus é alcançar
Seus objetivos por meios e caminhos mais planos, mas, havendo resistência, o
Senhor agirá conforme a necessidade do caso. Nas páginas inspiradas encontramos
várias vezes o Senhor agindo desta maneira, sempre com o objetivo de trazer o
homem para perto de si, e ao mesmo tempo conduzi-lo ao conhecimento de si
mesmo. O livro de Jó é um legado de grande valor nestas considerações e o Salmo
139 é apenas um, entre os muitos contextos maravilhosos do Tomo Sagrado, no
qual encontramos o homem conhecendo a si mesmo.
As provações a que
Jacó fora exposto nesse capítulo, tiveram o objetivo de conduzi-lo ao fim de si
mesmo, para que assim fosse desfeita a dureza do seu obstinado coração. Jacó
era inútil para Deus e o seu fim era necessário para que outro — Israel —
pudesse ocupar o lugar dele.
Ao fazermos esta
colocação, nos referimos às obras, às ações deste patriarca, pois não devemos
nos esquecer que Deus amou a Jacó (Mal. 1:2).
Nesse mesmo capítulo
descobrimos porque Israel precisava ocupar seu lugar. No verso 22 temos a
atitude imoral de Rubén, seu filho primogênito, profanando o leito de seu pai,
mas quem teve conhecimento disso não foi Jacó, mas Israel. Esta é a primeira
vez que é assim chamado nas relações com os homens. Podemos perguntar: “que
diferença faz?”. Para o homem natural esta mudança de nome não expressa nenhuma
diferença, pelo fato de não estar capacitado a compreender as coisas do
Espírito (I Cor. 2.14). Mas para o homem espiritual, existe muita diferença.
Ela começa com as palavras do verso 10, quando diz: “e lhe chamou Israel”. As
demais aparecerão em todos os atos de Israel em relação com os atos de Jacó.
Jacó viveu para a
carne, mas Israel deve viver para o Espírito. E por isso que ao ser traído
pelo filho, não vemos vingança, nem conspiração ou qualquer indício de ódio. E
verdade que os seus sentimentos foram feridos e sua emoção afetada, pois perto
da morte foi capaz de recordar esta cena horrível (Gen. 49.3-4). Contudo
Israel não é vingador, mas sim paciente — alguém que espera em Deus (I Pe. 2.23). Em outras palavras, podemos
dizer que Deus está mostrando a Israel que Ele mesmo suportou Jacó, e o amou.
Como é precioso
vermos o Senhor agindo em benefício de Seus escolhidos. Paulo disse aos
Coríntios que a nossa leve e momentânea tribulação
produz para nós um peso eterno de glória acima de toda comparação (II
Cor. 4.17); e que tribulação produz perseverança (Rm. 5.3 e Tg. 1.3).
Em Gênesis 49 vemos
que marcas inapagáveis ficaram em Jacó. Podemos ver como foi duro para ele este
momento mencionado; podemos ver ali a sua decepção com o ocorrido; podemos
vê-lo destituindo-o do seu lugar excelente, mas, segundo o parecer de Israel,
não o vemos assim. Israel estava convicto de que Deus estava ferido com Jacó
por causa da sua obstinação, mas com amor e longanimidade o havia conduzido e
cuidado dele, e que agora esta deveria também ser a sua maneira de retribuir.
Tudo isso que se
passa diante de nós é gratificante e instrutivo. Importa sabermos assimilar
estas instruções, e praticá-las em nosso viver.
O capítulo 37 contém
o princípio de uma das muitas histórias comoventes relatada no Antigo
Testamento. É interessante observarmos que o verso 2 nos diz que esta é a
história de Jacó e não de José; no verso 3 diz que Israel amava José e lhe fez
uma túnica talar de mangas compridas, e nos versos 13 e 14 diz que Israel
enviou José. Segundo o que temos relatado nesse capítulo, vemos que a história
de Jacó é uma história de planos, conspirações e sangue, ao passo que a
história de Israel é de amor e cuidado para com os seus.
Em tudo isso que se
passa diante de nós, vemos as ações dos homens em contraste com as ações de
Deus. Em outras palavras, podemos ver o amor de Deus em dar o Seu único Filho,
bem como a oposição dos homens em designar-lhe uma cruz.
O antítipo, o
verdadeiro José veio ao mundo (Jo. 1.11), mas o que encontrou aqui? A Sua
história nos mostra como Ele amou em contraste com o ódio recebido da parte dos
homens — Ele foi preterido por todos.
Disse o apóstolo
Pedro que Ele foi varão aprovado por Deus; mas foi também morto e crucificado
por mãos de iníquos (At. 2.22-23). Foi assim que trataram aquele que, por amor,
deixou o Lar da Glória para vir de encontro às nossas necessidades sem
considerar que Deus enviou seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo,
mas para que o mundo fosse salvo por Ele (Jo. 3.17).
Nós lemos dos sofrimentos do Senhor por nós, e
ficamos gratos pelo que Ele nos fez. Mas houve também os sofrimentos do Pai
pelo Filho. Quando Deus Pai viu Seu Imaculado Filho sendo conduzido a um
tribunal humano para ser julgado como um malfeitor; quando contemplou os
homens batendo e cuspindo no Seu rosto, humilhando-O; e, por fim, sendo
condenado, conduzido até à cruz sendo ali pregado, sofrendo tudo isso por causa
dos nossos pecados - o Justo pelos injustos - , fazendo-o pecado por nós (II
Cor 5:21); aqui nesse último ponto Deus não pôde contemplar a cena horrível de
maldição e desamparou Aquele que foi, e sempre será, o Supremo Objeto do Seu
amor.
“Deus meu, Deus meu,
porque me desamparaste?” (Mt. 27.46), foram as palavras proferidas pelo Senhor Jesus na cruz, e
que ao mesmo tempo relatam a situação do Pai sem contemplar ali o Filho do Seu
amor, Aquele no qual sempre encontrou o Seu prazer. O Pai foi ferido quando o
Filho foi ferido ali por nós e a favor de nós. Este foi o motivo do desamparo
do Pai naqueles momentos tão negros da história humana.
Resta-nos pensar
agora no dia do juízo, no dia em que o Pai o colocará como juiz, e o
justificará. Este, certamente, será um dia singular e especial na história
desse mundo. Aquelas cenas do calvário serão plenamente recordadas, e será
manifesta a ingratidão dos homens em vista de todo o amor de Deus, como também
será manifesto o caráter do Senhor Jesus Cristo como o Santo do Pai; como
aquele que o glorificou, obtendo como resultado disso a salvação daqueles que creem no seu Santo Nome
e ao mesmo tempo a condenação daqueles que o rejeitam, sendo assim banidos da
sua presença para todo o sempre.
É maravilhoso vermos
que, embora sendo humilhado pelos homens, foi Ele pelo Pai exaltado; coroado de
glória e de honra; e assentado à Sua destra como Senhor do céu e da terra (Fp.
2.9-11 / At. 2.33 / Ap. 5.12). Em contraste, quando Jacó foi avisado da morte
de José, ele rasgou as suas vestes e vestiu-se de pano de saco, e chorou e
lamentou por muitos dias, e disse: “Chorando descerei a meu filho, à sepultura”
(Gen. 37.34-35).
(Contiuna...)
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