sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Lições na vida e obra de Jacó


5_ Jacó em Canaã. Sua permanência ali — Gênesis 33:18-20; 34:1-31; 35:1-29; 37:1-36

 

Ao avançarmos nas considerações acerca das experiências de Jacó, impressiona-nos ob­servar como o homem procede em face de toda a bondade de Deus. Depois de toda a manifesta­ção de amor e bondade, Jacó fixa-se em Sucote, e isso contra todos os princípios que norteiam (orientam) a vida do peregrino de Deus. Deus o havia chamado para Betel (Casa de Deus) e não para Sucote (Cabana). Edificar casas e fazer palhoças para o gado (v. 17) era a ati­tude de quem não havia entendido o chamado de Deus, e muito menos sua relação com Ele — nada podia ser mais claro. Sucote não era o lugar de Jacó e muito menos o lugar que Deus lhe designou. É lamentável ver como o coração humano contenta-se com uma posição inferior àquela que Deus lhe deu.

Em Filipenses 3.20 lemos que a nossa pátria está nos céus. Em Hebreus 3.1 diz que par­ticipamos de uma vocação celestial, por isso é sempre oportuno perguntar a nós mesmos: “Quais os motivos pelos quais me afadigo a cada dia em meu fútil viver?”. Onde e para que tenho edi­ficado a minha casa? Em Mateus 6.19-21 o Senhor Jesus nos ensina acerca da ma­neira de trabalharmos e em função de que trabalharmos. Diz o Senhor: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam, nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.

Em seguida lemos que Jacó chegou à cidade de Siquém (Ombro) são e salvo (v. 18 e Deut. 32.12) e armou sua tenda junto à cidade. Aqui podemos lembrar-nos de Ló quando se dirigiu a Sodoma, separando-se de Abraão (Gen. 13.12) e comprou um campo ali. É importante obser­varmos que os planos de Jacó obstruem os planos de Deus. Deus o tem chamado para Betel — para Sua casa — mas Jacó edifica sua própria casa em Sucote; e saindo dali arma uma tenda e compra um campo em Siquém. Significando “Ombro” sua estadia ali ser-lhe-á uma penosa car­ga a carregar. Gravíssimas coisas aconteceram a este homem nesse lugar em função de sua ati­tude. Lemos da humilhação de Diná e a inconsequente vingança de seus irmãos, fatos que causa­ram muita aflição ao coração de Jacó. Mais tarde vemos que Jacó envia José a Siquém para ver como estavam seus irmãos; eles o tomaram e o venderam (Gen. 37.13-14) acrescentando maior dor e angústia a Jacó.

Mas podemos perguntar: “Siquém não está na terra de Canaã?” Sim, isso é verdadeiro, mas considere que Deus não o chamou para aquele lugar, mas sim para Betel. De tudo isso po­demos aprender que formalismos religiosos e aparências de fé sem obras, não satisfazem a Deus, podendo terminar em graves consequências sobre todos que assim procedem. O coração obediente jamais hesitará em obedecer às ordens de Deus. O que mais nos impressiona é como o coração humano age em vista de toda a fidelidade Divina. Bem disse Jeremias: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jer. 17.9).

Quando Deus tirou Ló das chamas de Sodoma e o enviou ao monte para salvar a sua vida, ele disse: “Não Senhor, pois receio que o mal me apanhe e eu morra” (Gen. 19.17-19). As­sim é o homem em todos os períodos da sua história. Jacó não somente armou a sua tenda com­prando um campo em Siquém, mas edificou também um altar. Temos assim, em relação a Si­quém, três motivos para ele estar ali:

1o - Um habitante — Armou sua tenda junto à cidade (v. 18)

2oUm proprietário Comprou um campo (v. 19)

3oUm religioso Edificou um altar (v. 20)

Tudo aquilo que passa perante os nossos olhos é o resultado direto de olhar sem a di­reção de Deus. Assim foi no passado com Ló e agora acontece o   mesmo com Jacó.       Certamente alguma coisa o atraiu, e com a atração a cobiça e a possessão. Para justificar-se ainda temos um altar, como que dizendo: “Estou servindo ao Senhor”. Ainda que o nome do altar pudesse ser: “Deus, o Deus de Israel”, tudo está permeado de erro. Analisando as revelações que temos até aqui, não percebemos nenhuma revelação de Deus como o Deus de Israel. Por mais maravilhosa que possa parecer esta expressão, até aqui Ele sempre se manifestou como o Deus de Betel. Es­tar em Siquém contrariava este princípio, e para manter a profissão necessitava de um titulo.

Mas, em tudo isso, temos o homem no seu triplo caráter de ação, ou seja: com o mundo, com a carne e com a religião. É a concupiscência dos olhos e da carne unidas à soberba da vida. Não é isso que percebemos na chamada religião? Qual o motivo de tantas siglas religiosas? Será que Deus foi dividido e permanece dividido? Graças damos ao Senhor, pois Ele é único em todos os sentidos e, portanto, impossível que seja dividido ou mesmo acrescido.

Admitimos que é um grande privilégio conhecê-lo como nosso Deus, mas isso será ainda maior quando o reconhecemos como o Deus de Sua Casa, e nós, pela fé, como parte desta Casa. Não pode ser dimensionado o privilégio de conhecermos a Cristo como a Cabeça da Igreja que é o seu corpo, e nós, como membros deste maravilhoso corpo. São estas revelações e conhecimentos que nos tor­nam mais próximos de Deus e capazes de discernir a importância da unidade do corpo de Cristo, assim como o privilégio de sermos usados por Ele, para manifestar, pelo Espírito Santo, toda a Sua Glória para a edificação do Seus povo redimido.

O conhecimento de Deus nos leva a desarraigarmo-nos deste mundo perverso que é o império de Satanás (Gl. 1.4) nos ligando a Ele para fazermos em tudo a Sua vontade. A falta deste conhecimento nos levará a envolvermo-nos com as coisas desta vida e nos levará a colher­mos frutos amargos durante todo o nosso viver aqui nesse mundo. Foi justamente esta e experi­ência de Jacó em Siquém. Vemos que Diná foi humilhada, e seus irmãos assassinaram covarde­mente os habitantes daquela cidade. Podemos dizer que estas cicatrizes jamais se apartaram da consciência de Jacó, pois até mesmo na hora da sua morte ele foi capaz de fazer menção deste fato triste em sua vida (Gen. 47.5-7). Medo, pavor e vergonha foram tão somente os resultados da sua estadia em Siquém (Gen. 34.1-3,30).

O que há de mais belo e fascinante nas páginas inspiradas é o amor e a paciência de Deus para com este homem. Devemos exaltar a graça de Deus que foi capaz de descer até nós em Cristo Jesus quando nos encontrávamos prostrados, abatidos e sem ânimo para continuarmos. Foi assim no passado com Jacó, e é assim no presente conosco. Quando Jacó disse a seus filhos: “Vós me afligistes, vós me fizestes odioso, eles me matarão” (v. 30), Deus lhe disse: “Sobe a Betel, habita ali e fazes um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú teu irmão (Gen. 35.1).

Todo louvor e toda glória sejam dadas a Ele pelos seus planos e caminhos para conos­co!!

Não posso prosseguir estas considerações sem antes falar dos nossos filhos, pois o autor destas linhas não está alheio quanto à minha e à vossa responsabilidade diante do Senhor para com os nossos filhos. Observe que Jacó está a chorar e lamentar pelos seus filhos (v. 30; Jer. 31.15; Mat. 2.18). Então perguntamos:

                     Onde estão os nossos filhos?

                     O que estão fazendo?

                     Para onde estão caminhando?

                     Qual foi o resultado do teu trabalho na vida dos teus filhos?

                     Teu dinheiro, tuas propriedades — tudo que você possa ter adquirido — foram     capa­zes de aproximá-los de Deus?

Sei que são perguntas que envolvem uma certa gravidade, mas sei também que pais e mães estão a lamentar e chorar por causa de seus filhos, simplesmente porque os apoiaram em atividades e negócios ilícitos, sem os ensinar a ter o temor do Senhor. Oposto a esta necessidade básica, deram-lhes exemplos negativos e os apoiaram em seus maus caminhos, razões estas que os induziram a permanecer emaranhados nos seus pecados, conduzindo-os para longe de Deus. Em muitos casos, os pais serão os culpados eternamente pela ruína e perdição de seus filhos.

Assim foi com Jacó no passado e pode ser conosco no tempo presente. Deixo-vos esta solene advertência esperando que ela possa à Luz da presença de Deus, nos esclarecer para que possamos pesar na balança da justiça Divina todos os nossos atos, especialmente aqueles nos quais nossos filhos serão amplamente beneficiados.

Voltando ao nosso tema, encontramos mais uma vez o Senhor vindo ao encontro das aflições de Jacó e dando-lhe mais uma vez, a receita da bem-aventurada posição. Não pode ha­ver melhor alívio para o coração aflito do que estar nas dependências da Casa de Deus. Davi e os filhos de Coré nos dão testemunhos de como é agradável tal lugar (Sl. 27.4; 84.1-12; 122.1).

Disse o Senhor a Jacó: “Levanta-te, sobe a Betel, habita ali e faze um altar ao Deus que te apareceu quando fugias da presença de Esaú, teu irmão” (Gen. 35.1). Havemos de considerar que cinco coisas importantes são comunicadas aqui a Jacó:

                     Levanta-te — É preciso Disposição para levantar.

                     Sobe a Betel — requer-se Prontidão para atendimento do mandamento.

                     Habita ali — Deus dará Provisão e comunhão.

                     Faze um altar — o lugar da Adoração.

                     Ao Deus que te apareceu O alvo; a razão; o alcance.

Levanta-te — Há de se considerar que ninguém pode conhecer plenamente a vontade de Deus, sem que esteja disposto a obedecê-lo (I Sm. 15.22). Obediência é tudo que o Senhor requer de nós. Foi pela desobediência de Adão que o pecado entrou no mundo, e foi também pela obe­diência do Senhor Jesus Cristo que a justificação foi alcançada para todo pecador (Rm. 5.19). Obedecer é o reconhecimento prático de que Ele é Senhor, e isso dignifica o Seu nome e o en­grandece. Por isso quando Ele diz alguma coisa, espera que nós o obedeçamos sem que haja qualquer constrangimento.

Sobe a Betel Quando Deus nos chama, certamente Ele deseja alguma coisa de nós, ou certamente tem alguma coisa para nós. Jacó está aflito em Siquém, mas o Senhor tem um refu­gio, um alívio para ele em Betel (Sl. 9.9); Ele quer livrá-lo dos seus temores (Sl. 34.4). Portanto, estar pronto para obedecê-lo será a única atitude sábia deste homem.

Habita ali A chamada de Deus tem como objetivo prover as necessidades do seu ser­vo e trazê-lo para junto de si, para que possa ter comunhão com Ele. Quando Deus veio em Cristo ao nosso encontro, não foi somente para nos livrar da perdição. Por mais maravilhoso que isso possa ser, Ele veio para nos levar para Si mesmo, para que possamos estar diante dele para sem­pre (Jo. 14.2-3). Infelizmente o homem não tem compreendido este propósito de Deus para com ele. Jacó apreciou muito pouco este ato de bondade de Deus; esqueceu-se dos cuidados do Se­nhor para com ele, pois no verso 16 lemos: “Partiram de Betel” (Dt. 6.12; 32.18; Jó 8.13). Sem qualquer dúvida, a chamada para Betel visava prover as suas necessidades e como consequência ter comunhão com ele.

Faze um altar Nas páginas inspiradas o altar é a marca do adorador. Não pode haver adorador sem altar, e nem altar sem adorador. Outra coisa importante é que o altar exige sacrifí­cio, pois sem sacrifício não há oferta, e sem oferta não há sacrifício e, consequentemente, não há adoração. Do adorador requer-se o que oferecer. Ele não deve vir de mãos vazias. Foi por isso que Jacó disse aos seus: “Lançai fora os deuses estra­nhos que há em vosso meio, purificai-vos, e mudai as vossas vestes. Levantemo-nos e subamos a Betel” (vs. 2-3).

É preciso sacrifício para que haja adoração. Não sei o que devemos sacrificar, mas sei que se desejamos adorar ao Senhor, devemos ter o que oferecer. Seja o que eu mais quero, aquilo que alcancei com dificuldade, ou aquilo que eu mais amo tudo que possa ser um obs­táculo entre mim e Deus tem que ser sacrificado, para que possamos adorá-lo (Mt. 10. 37-38).

Ao Deus que te apareceu — No verso 5 lemos: “Tendo eles partido, o terror de Deus invadiu as cidades”. Não foi o terror dos filhos de Jacó, por causa da sua violência, mas verda­deiramente o terror de Deus. Esta é pelo menos a terceira vez que o Senhor mostra a Jacó o quanto ele pode confiar nele. A primeira vez foi quando Labão, seu tio, saiu no seu encalço (31. 23-24); a segunda quando se encontrou com Esaú, seu irmão (32.11; 33.4); a terceira diante das cidades circunvizinhas. Assim é o Senhor. Nele podemos confiar (Sl. 27.1-2; 56.3).

 

Assim chegou a Betel — e edificou um altar e lhe chamou “El Betel”. Vejam como este altar é diferente do altar de Siquém. Este foi edificado numa base mais sólida, pois Betel é a Casa de Deus, enquanto Siquém nos é apresentado como um lugar de impureza e idolatria.

Em Gênesis 12.6-7 lemos que Abraão edificou um altar nas proximidades desta cidade, mas não encontramos nenhum indício de que haja prestado algum culto nesse altar, a não ser a menção de que este foi erigido ao Deus que lhe aparecera. Mas quando aproximou-se de Betel, ali edificou um altar ao Senhor e então invocou o nome do seu Deus, o Senhor. Isso é muito di­ferente e está baseado numa apreciação superior àquela. Uma coisa é sabermos algo acerca do Deus que nos aparecera, mas outra muito diferente é conhecê-lo como nosso Senhor e Deus. Esta distinção é dada somente àqueles que estão na Sua Casa.

Eis a razão porque o altar de Betel é infinitamente mais elevado que o de Siquém, visto que está erguido nos princípios que regem e norteiam (orientam) a Casa de Deus.

Podemos falar de Deus, mas se o lugar onde falamos é indigno do Seu nome, se o que nos cerca não é compatível com a santidade de Deus, seremos apenas cristãos formais (Jo. 4.22), destituídos do conhecimento do Senhor e do que seja prestar-lhe culto. “A santidade con­vém à Casa do Senhor, para todo o sempre”, estas são as palavras do inspirado salmista (Sl. 95.3).

Somente o conhecimento de Deus produzido pelo ministério do Espírito Santo, pode conduzir o pecador a tal discernimento. “Deus é Espírito” (Jo. 4.24), e somente o homem espi­ritual possui capacidade para conhecer Deus e prestar-lhe adoração de acordo com a Sua digni­dade. É por isso que lemos: “Deus procura adoradores que o adorem em Espírito e em verdade” (Jo. 4.23-24).

São estes fatos que manifestam a diferença da nossa compreensão de Deus e do verda­deiro culto. Certamente foi por esta causa que em Deuteronômio 12 Deus insistiu em mostrar aos Seus servos o lugar do verdadeiro culto, como também advertiu-os quanto ao fato de não ser em qualquer lugar, mas no lugar que Ele escolher.

Portanto, não deve ser em qualquer lugar e de qualquer maneira. Necessitamos de condições espirituais que preencham os quesitos da santida­de de Deus. Para Jacó este lugar era Betel, e não Siquém.

Outro fator importante nesse capítulo de Gênesis, é que ele é o único lugar em toda a Bí­blia a falar de 4 mortes, em momentos diferentes numa mesma família. Três mortes físicas, e uma morte espiiritual.

                     Morreu Débora — ama de Rebeca (v. 8)

                     Morreu Raquel — sua esposa amada, preferida (vs. 18-19)

                     Morreu Isaque — seu pai (v. 29)

O sepultamento e o lugar do sepultamento de todas estas pessoas estão relatados com detalhes no capitulo 35 deste livro.   Cada uma dimensionada conforme a sua importância na vida deste patriarca. Foram três mortes que tocaram profundamente as suas afeições e que tiveram grande impacto na sua vida, pois lemos em verso 09 que vindo ele de Padã-Arã Deus lhe apareceu e o abençoou. Isto certamente é uma referência ao encontro relatado no capitulo 32:28 onde Deus mudou o seu nome de Jacó para Israel. Mas é aqui depois da morte de Debora que o Senhor lhe chama Israel (verso 10c).

DÉBORA — Ama de Rebeca, sua mãe. Certamente foi a pessoa que cuidou dele quando criança, sendo esta mulher de grande significado para ele. Quando partiu para Padã-Arã, nunca mais viu a sua mãe, e Débora certamente o fazia recordar dela e preenchia o vazio ficado com a ausência daquela. Assim podemos entender que esta mulher tinha um lugar especial na vida de Jacó, e era muito importante para ele. Mas segundo os direitos de Deus estes laços devem ser quebrados e Jacó deve aprender que tudo aquilo que constitui um laço para ele, ainda que seja uma afeição natural, deve ser retirada, assim lemos da morte de Debora que simbolizava estas afeições.

RAQUEL Sua esposa amada, pela qual submeteu-se à escravidão de Labão, seu tio, por um período de 14 anos, representava para ele as mais profundas afeições que emanavam da sua alma por ela, o seu amor. Ninguém pode descrever a importância desta mulher na vida de Jacó, seu amor, sua ternura, seus mais profundos afetos. A luta desta mulher em prover descendentes para seu marido, a humilhação que sentiu pela esterilidade, tudo isto são marcas profundas na vida deste patriarca, e mais ainda, a luta até a morte no nascimento do segundo filho; o nome dado ao filho “Benoni” o filho da minha dor, são fatos que deixaram marcas inapagáveis para este homem. Podemos imaginar que durante toda vida futura, cada vez que olhava para esta criança, aquelas cenas vinhas a sua mente e ao seu coração. Quantas lições lhe foram ensinadas pelo Senhor durante os anos vividos após estes acontecimentos das mais variadas formas.

ISAQUE — Seu querido pai. Podemos pensar: “É um golpe duro demais para um ho­mem mortal perder em tão pouco tempo três pessoas tão amadas e de tão grande valor e apreço. Se colocarmos as afeições do homem na frente, certamente não pensaremos de outra ma­neira. Esta é a nossa maneira de avaliar. Mas quando os interesses de Deus forem as nossas in­tenções, assim como o bem espiritual deste homem, compreenderemos que não podemos nos deter nesta maneira de pensar. Aprenderemos que Deus ama os seus e trabalha incessantemente para seu bem e prazer, jamais agirá em detrimento daqueles que tanto ama e por quem deu seu amado Filho; ainda que, não compreendamos seus intentos (Heb 12:11).

Passaremos por cima destas cenas para descobrirmos os objetivos de Deus a serem mani­festos na vida deste patriarca. É importante realçar que todas as atitudes de Deus, de acordo com a Sua vontade, bem como todos os pactos que Jacó fez com Ele, não surtiram os efeitos propos­tos. Jacó estava sempre a falhar e a impor prerrogativas. Como inverter então esta situação? Não há outro recurso, a não ser a morte deste homem. É aqui que encontramos a quarta morte que fora referida — a morte de Jacó mesmo, a morte do ego.

Enquanto o homem não for levado ao fim de si mesmo, Deus estará impedido de agir, sendo o Senhor da vida de qualquer homem. Grande proveito teremos se aprendermos que a intenção de Deus é alcançar Seus objetivos por meios e caminhos mais planos, mas, havendo resistência, o Senhor agirá conforme a necessidade do caso. Nas páginas inspiradas encontramos várias vezes o Senhor agindo desta maneira, sempre com o objetivo de trazer o homem para perto de si, e ao mesmo tempo conduzi-lo ao conhecimento de si mesmo. O livro de Jó é um legado de grande valor nestas considerações e o Salmo 139 é apenas um, entre os muitos contextos maravilhosos do Tomo Sagrado, no qual encontramos o homem conhecendo a si mesmo.

As provações a que Jacó fora exposto nesse capítulo, tiveram o objetivo de conduzi-lo ao fim de si mesmo, para que assim fosse desfeita a dureza do seu obstinado coração. Jacó era inú­til para Deus e o seu fim era necessário para que outro — Israel — pudesse ocupar o lugar dele.

Ao fazermos esta colocação, nos referimos às obras, às ações deste patriarca, pois não devemos nos esquecer que Deus amou a Jacó (Mal. 1:2).

Nesse mesmo capítulo descobrimos porque Israel precisava ocupar seu lugar. No verso 22 temos a atitude imoral de Rubén, seu filho primogênito, profanando o leito de seu pai, mas quem teve conhecimento disso não foi Jacó, mas Israel. Esta é a primeira vez que é assim cha­mado nas relações com os homens. Podemos perguntar: “que diferença faz?”. Para o homem natural esta mudança de nome não expressa nenhuma diferença, pelo fato de não estar capacita­do a compreender as coisas do Espírito (I Cor. 2.14). Mas para o homem espiritual, existe muita diferença. Ela começa com as palavras do verso 10, quando diz: “e lhe chamou Israel”. As de­mais aparecerão em todos os atos de Israel em relação com os atos de Jacó.

Jacó viveu para a carne, mas Israel deve viver para o Espírito. E por isso que ao ser traí­do pelo filho, não vemos vingança, nem conspiração ou qualquer indício de ódio. E verdade que os seus sentimentos foram feridos e sua emoção afetada, pois perto da morte foi capaz de recor­dar esta cena horrível (Gen. 49.3-4). Contudo Israel não é vingador, mas sim paciente alguém que espera em Deus (I Pe. 2.23). Em outras palavras, podemos dizer que Deus está mostrando a Israel que Ele mesmo suportou Jacó, e o amou.

Como é precioso vermos o Senhor agindo em benefício de Seus escolhidos. Paulo disse aos Coríntios que a nossa leve e momentânea tribula­ção produz para nós um peso eterno de glória acima de toda comparação (II Cor. 4.17); e que tribulação produz perseverança (Rm. 5.3 e Tg. 1.3).

Em Gênesis 49 vemos que marcas inapagáveis ficaram em Jacó. Podemos ver como foi duro para ele este momento mencionado; podemos ver ali a sua decepção com o ocorrido; po­demos vê-lo destituindo-o do seu lugar excelente, mas, segundo o parecer de Israel, não o vemos assim. Israel estava convicto de que Deus estava ferido com Jacó por causa da sua obstinação, mas com amor e longanimidade o havia conduzido e cuidado dele, e que agora esta deveria tam­bém ser a sua maneira de retribuir.

Tudo isso que se passa diante de nós é gratificante e instruti­vo. Importa sabermos assimilar estas instruções, e praticá-las em nosso viver.

O capítulo 37 contém o princípio de uma das muitas histórias comoventes relatada no Antigo Testamento. É interessante observarmos que o verso 2 nos diz que esta é a história de Jacó e não de José; no verso 3 diz que Israel amava José e lhe fez uma túnica talar de mangas compridas, e nos versos 13 e 14 diz que Israel enviou José. Segundo o que temos relatado nesse capítulo, vemos que a história de Jacó é uma história de planos, conspirações e sangue, ao pas­so que a história de Israel é de amor e cuidado para com os seus.

Em tudo isso que se passa diante de nós, vemos as ações dos homens em contraste com as ações de Deus. Em outras palavras, podemos ver o amor de Deus em dar o Seu único Filho, bem como a oposição dos homens em designar-lhe uma cruz.

O antítipo, o verdadeiro José veio ao mundo (Jo. 1.11), mas o que encontrou aqui? A Sua história nos mostra como Ele amou em contraste com o ódio recebido da parte dos homens — Ele foi preterido por todos.

Disse o apóstolo Pedro que Ele foi varão aprovado por Deus; mas foi também morto e crucificado por mãos de iníquos (At. 2.22-23). Foi assim que trataram aquele que, por amor, deixou o Lar da Glória para vir de encontro às nossas necessidades sem considerar que Deus enviou seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele (Jo. 3.17).

Nós lemos dos sofrimentos do Senhor por nós, e ficamos gratos pelo que Ele nos fez. Mas houve também os sofrimentos do Pai pelo Filho. Quando Deus Pai viu Seu Imaculado Filho sendo conduzido a um tribunal humano para ser julgado como um malfeitor; quando contem­plou os homens batendo e cuspindo no Seu rosto, humilhando-O; e, por fim, sendo condenado, conduzido até à cruz sendo ali pregado, sofrendo tudo isso por causa dos nossos pecados - o Justo pelos injustos - , fazendo-o pecado por nós (II Cor 5:21); aqui nesse último ponto Deus não pôde contemplar a cena horrível de maldição e desamparou Aquele que foi, e sempre será, o Supremo Objeto do Seu amor.

“Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Mt. 27.46), foram as palavras proferidas pelo Senhor Jesus na cruz, e que ao mesmo tempo relatam a situação do Pai sem contemplar ali o Filho do Seu amor, Aquele no qual sempre encontrou o Seu prazer. O Pai foi ferido quando o Filho foi ferido ali por nós e a favor de nós. Este foi o motivo do desamparo do Pai naqueles momentos tão negros da história humana.

Resta-nos pensar agora no dia do juízo, no dia em que o Pai o colocará como juiz, e o justificará. Este, certamente, será um dia singular e especial na história desse mundo. Aquelas cenas do calvário serão plenamente recordadas, e será manifesta a ingratidão dos homens em vista de todo o amor de Deus, como também será manifesto o caráter do Senhor Jesus Cristo como o Santo do Pai; como aquele que o glorificou, obtendo como resultado disso a salvação daqueles que creem no seu Santo Nome e ao mesmo tempo a condenação daqueles que o rejeitam, sendo assim banidos da sua presença para todo o sempre.

É maravilhoso vermos que, embora sendo humilhado pelos homens, foi Ele pelo Pai exaltado; coroado de glória e de honra; e assentado à Sua destra como Senhor do céu e da terra (Fp. 2.9-11 / At. 2.33 / Ap. 5.12). Em contraste, quando Jacó foi avisado da morte de José, ele rasgou as suas vestes e vestiu-se de pano de saco, e chorou e lamentou por muitos dias, e disse: “Chorando descerei a meu filho, à sepultura” (Gen. 37.34-35).
 
(Contiuna...)

 

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