JUSTIFICAÇÃO POR FÉ
MEUS AMADOS
IRMÃOS,
A primeira verdade
que desejo explicar, da forma como a compreendo agora a partir das Escrituras,
é a verdade da justificação por fé.
A maioria de vocês
sabem que Deus, em Sua graça soberana, usou Lutero para recuperar, em parte,
esta preciosa verdade das corrupções do Catolicismo Romano; que, como ele
exprimiu, foi uma benção de Deus para milhões de almas; e que, falando de forma
geral, ainda caracteriza nominalmente às igrejas 'ortodoxas' [1] da Reforma. E
digo nominalmente porque alguém não podia, senão observar com pena, que o
racionalismo e a superstição estão recobrando rapidamente sua supremacia,
mesmos nos baluartes do Protestantismo. Então, proponho examinar, antes de
tudo, esta doutrina tal como é comumente sustentada pelos Protestantes
ortodoxos, seja na Igreja estabelecida (Anglicanismo ou Igreja da Inglaterra)
ou nos Dissidentes (outras denominações).
[1] O uso desta palavra refere-se a manutenção das doutrinas Cristãs
fundamentais, não das Igrejas Ortodoxas Grega, Russa ou romana.
Pode-se dizer que
sua pedra angular é a opinião de que Cristo durante sua vida na terra, obedeceu
a lei em nosso lugar; e por isso se diz que, quando nós cremos, ao
mesmo tempo que o sangue de Cristo nos limpa da culpa, a obediência de Cristo -
sua obediência vicária à lei - é imputada a nós para justiça e, por
conseguinte, somos justificados diante de Deus por fé. Assim falam os teólogos
da obediência ativa e passiva de Cristo: sendo a obediência ativa sua
obediência à lei, e a passiva Seus sofrimentos na cruz; e eles nos dizem que a
passiva serviu para propiciação, e a ativa serve para a imputação da justiça,
de modo que, no momento em que creio nEle, eu estou diante de Deus no valor de
ambas - no valor de Seus sofrimentos para a remissão do pecado, e no valor de
sua obediência substutiva à lei para minha justiça, e que desta maneira,
satisfazendo todas as exigências de Deus sobre mim, sou declarado justificado.
Sendo assim, temos
que investigar se esta doutrina, tal como se declara, está em conformidade com
a Palavra de Deus. Vocês sabem que anteriormente eu pensava que era conforme à
Palavra de Deus; e, posso acrescentar, que reservei para mim mesmo este ponto
quando tomei meu lugar entre os 'irmãos', embora tenham me dito imediatamente
que uma diferença acerca deste ponto não era uma barreira para a comunhão à
mesa do Senhor. Mas pouco despois, ao ler cuidadosamente as epístolas aos
Romanos e aos Gálatas, me surpreendi ante o descobrimento de que minhas
opiniões acerca deste assunto estavam baseadas em ensinos humanas, e não nas
Escrituras. Portanto, em lugar de uma exposição formal, apenas ponderei de
imediato o processo através do qual fui conduzido reexaminar o tema.
1. Em primeiro
lugar, eu vi que que a escritura registra que Abraão foi justificado por fé
quatrocentos trinta anos antes de que a lei fora dada; e vi
assim que a lei não teve nada a ver com sua justificação; e que o único terreno
disto foi a fé em Deus (Gálatas 3: 6-29; também Romanos 4). Isto deu mais
significado a partir do fato de que apresenta a justificação de Abraão pela fé,
como o modelo para a nossa justificação, ou melhor, afirma que o princípio é o
mesmo (Leiam Romanos 4: 23-25; também Gálatas 3: 8, 9). Pois bem, se Abraão foi
justificado pela fé em Deus sem a imputação de nenhuma obediência à lei, e se
nós somos justificados pela fé através da imputação dessa obediência, temos de
imediato dois princípios opostos de justificação, e o argumento do apóstolo cai
por terra.
2. Em segundo
lugar, encontro declarado claramente que os Gentios, e por conseguinte nós
mesmos, jamais estivemos sob a lei. O apóstolo diz assim: "Porque quando
os gentios que não tem lei." (Romanos 2:14). De novo,
ele contrasta os que estão sob a lei com os que não estão debaixo dela quando
diz: "Pois a lei produz ira; mas onde não há lei,
também não há transgressão" (Romanos 4:15). E ele contrasta uma vez mais
os Judeus com os Gentios, neste respeito, quando diz: "Fiz-me como aos
judeus para os judeus, para ganhar os judeus; aos que estão sujeitos
à lei (ainda que eu não esteja sujeito à lei) como sujeito à lei,
para ganhar aos que estão sujeitos à lei; aos que estão sem lei,
como se estivera sem lei," etc. (1 Coríntios 9: 20, 21). Por todas as
partes, efetivamente, quando se trata deste assunto, ele faz esta distinção; e
é devido a esta distinção que ele mostra que a justificação de Abraão, antes da
lei, é o modelo de justificação, tanto para o Judeu sob a lei como para o
Gentio sem lei. No entanto, o ponto a ser observado é que se os Gentios jamais
estiveram sob a lei (tal como o apóstolo afirma continuamente), a imputação a
um crente Gentio da obediência à lei não poderia ser o terreno de sua
justificação diante de Deus.
3. Me surpreende o
fato de que o termo 'a justiça de Cristo' jamais foi utilizado em conexão com a
doutrina da justificação, de fato, o termo não se encontra no Novo Testamento.
Por outra parte, descobri que onde quer que esta doutrina é exposta o termo
utilizado é, a justiça de Deus. (Veja Romanos 1:17; Romanos
3: 21, 22, 25, 26; Romanos 10: 3; 2 Coríntios 5:21; Filipenses 3:9; etc.).
Admitamos que este fato é peculiar, pois se a obediência de Cristo é imputada a
nós pela fé, vem a ser nossa justiça diante Deus. Porque, certamente, seria
estranho que o Espírito Santo utilizasse o termo "justiça de Deus" se
Ele tivesse tido a intenção de dirigir nossas mentes à justiça de Cristo.
Mas podemos
arguir: “Temos a obediência mencionada, e é
precisamente isso o que constitui nossa justiça”. Examinemos esta frase onde
quer que ela possa ser encontrada. A porção da escritura mais relevante
relacionado com esta pergunta é Romanos 5: 18, 19. "Assim pois, como por
uma só transgressão [nota a margem, uma transgressão] veio a condenação de
todos os homens, assim também por um só ato de justiça [nota a margem, um só
ato de justiça] veio a graça sobre todos os homens para justificação de
vida. Porque assim como pela desobediência de um homem, muitos foram
constituídos pecadores, assim também pela obediência de um, muitos serão
constituídos justos." (Romanos 5: 18, 19). Antes de mais nada, permita-me
convidar-lhes a por sua atenção sobre o fato de que as leituras marginais do versículo
18 são admitidas por todos os estudiosos das Escrituras, independentemente de
suas opiniões doutrinais, como sendo elas traduções corretas do original; e daí
que as coisas comparadas, ou mais bem contrastadas, são o um só ato
de transgressão do primeiro Adão, e o um só ato de
justiça do segundo Adão. Sendo isto assim, o significado (visto
que o versículo 19 é simplesmente explicativo do 18) dos termos
"desobediência" e "obediência" no versículo posterior é
evidente. Foi o ato de desobediência de parte de Adão que introduziu o pecado;
e foi o ato de obediência (digo, obediência até a
morte) da parte de Cristo que introduziu a justiça. Vemos que o que se
contrasta são unicamente atos.
Isto fica ainda
mais evidente se passarmos a outro passagem-. O próprio Senhor, falando de sua
morte, disse: "Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para
tomá-la de novo. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de minha própria vontade.
Tenho autoridade para dá-la, e tenho autoridade para tomá-la de novo. Este
mandamento recebi de meu Pai" (João 10: 17, 18). Claramente
nesta passagem, o Senhor fala de sua morte como um ato de obediência. Esta
conclusão será confirmada sem nenhuma dúvida se passamos a Filipenses 2. É nos
dito ali, nessa maravilhosa descrição da humilhação do Senhor Jesus (uma
descrição, como outros tem dito com frequência, que implica também num
contraste com Adão, que foi desobediente até a morte), que "Ele
humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte
de cruz" (Filipenses 2:8). Ambos as passagens nos mostram de que maneira
interpretar Romanos 5:19; porque elas ensinam que é a obediência do Senhor até
a morte, o que está na perspectiva do apóstolo, e que es isto o que constitui o
terreno da nossa justificação diante Deus. E devo recordar-lhes, em
confirmação, que não diz nem uma só palavra acerca da obediência à lei na
passagem, nem sequer no parágrafo; mas que, como assinalamos, o simples
contraste é entre Adão, que desonrou a Deus por sua desobediência, e Cristo,
que glorificou a Deus por sua obediência até a morte.
Outra passagem que
talvez poderá vir à mentes de alguns. Refiro-me a Hebreus 10, onde o apóstolo
introduz a Cristo, dizendo: "Eis aqui venho, oh Deus, para fazer a
tua vontade" (Versículos 7-10). Todavia o versículo 10 explica isto em
perfeita conformidade com o que temos adiantado. "É nessa vontade que
somos santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo feita uma vez
para sempre" (Hebreus 10:10). A vontade de Deus se cumpriu, portanto, no
sacrifício de Cristo.
Então, havendo
considerado as vários passagens nas quais se salienta 'a obediência de Cristo',
podemos dizer também que esta obediência, no aspecto da obediência à lei,
jamais é mencionada em conexão com a justificação do crente. Que eu não seja
mal entendido. O Senhor Jesus foi sempre obediente ao Pai, o Único
perfeitamente obediente que o mundo jamais viu; e também Ele obedeceu a lei em
toda seu comprimento, largura, profundidade e altura. De fato, Ele nunca fez a
sua própria vontade; porque sua comida foi fazer a vontade de seu Pai, e
terminar sua obra. Contudo, descobri que a Escritura jamais fala da obediência
de Cristo em vida - sua obediência à lei - como sendo o terreno de
justificação.
4.- O apóstolo é
cuidadoso ao afirmar, uma e outra vez, que a justiça não veio, e nem podia vir,
por meio da lei. Tomemos uma ou duas ilustrações disto. Na epístola aos
Romanos, depois de mostrar que "pelas obras da lei nenhum ser humano será
justificado" (Romanos 3:20), ele prossegue, "Mas agora, sem lei,
[gr., Χωρίς νόμος, jorís nómos] se manifestou a justiça de Deus."
(Romanos 3:21). E novamente, "se a justiça vem por meio da lei,
então Cristo morreu em vão." (Gálatas 2:21). E ainda outra vez, "se
fosse dada uma lei capaz de comunicar vida, então a justiça, na verdade, teria
dependido da lei." (Gálatas 3:21).
Pois bem, se
Cristo obedeceu a lei em nosso lugar, e se essa obediência fosse imputada ao
crente para justiça, pergunto: por acaso a justiça não seria por meio da lei? Portanto,
se este fosse o ensino das Escrituras, era simplesmente impossível para o
apóstolo utilizar aquelas expressões. Mas podemos argumentar: “Ele queria dar a
entender que a justiça não podia ser obtida pelo homem mediante
a obediência à lei”. Minha resposta é, “Esta não era a intenção do apóstolo,
pois se fosse, ele tornaria isto bem claro. Se fosse assim, ele teria explicado
cuidadosamente que a justiça somente poderia ser alcançada por meio da lei,
mesmo que através da obediência substitutiva do Senhor Jesus Cristo”. Mas ele
faz as asseverações mais amplas possíveis quanto à impossibilidade de que a
justiça viesse por meio da lei; nem sequer insinua a obediência do Senhor Jesus
Cristo relacionada a ela; e de fato, nos diz claramente que a justiça de Deus
foi manifestada totalmente separada da lei (gr., Χωρίς νόμος, jorís
nómos).
5. Estes vários
pontos me convenceram de que o ensino teológico comumente recebido acerca deste
tema não tem nenhum fundamento na Escritura; e outras considerações apontam na
mesma direção. Por exemplo, eu pergunto a mim mesmo, “Quais são os propósitos e
a intenção da lei”? A resposta a esta pergunta é encontrada nas seguintes
passagens:
Romanos 3:20: "Por isso, pelas obras da lei nenhum ser humano será
justificado diante dele; porque pela lei vem o conhecimento do pecado."
Romanos 5:20: "Contudo a lei foi introduzida para que o pecado
abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça."
Romanos 7: 7-12: "Que diremos, pois? É a lei pecado? De maneira nenhuma.
Porque eu não conheci o pecado senão pela lei; porque tampouco conheceria a
cobiça, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião
pelo mandamento, produziu em mim toda cobiça; porque sem lei o pecado está
morto. E eu sem lei vivia num certo tempo; mas vindo o mandamento, o pecado
reviveu e eu morri. E o mesmo mandamento que me era para vida, se me tornou em
morte; porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele
me matou. De maneira que a lei é santa, e o mandamento santo, justo e
bom."
Gálatas 3: 19-25: "Então, para que serve a lei? Foi adicionada por
causa das transgressões, até que viesse a semente a quem foi feita a promessa;
e foi ordenada por meio dos anjos nas mãos de um mediador. E o mediador não o é
de um só; mas Deus é um. Logo a lei é contrária às promessas de Deus? De
maneira nenhuma; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a
justiça, na verdade, seria pela lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do
pecado, para que a promessa que é pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos
crentes. Mas, antes que viesse a fé, estávamos confinados sob a lei, e
encerrados para aquela fé que ia ser revelada. De maneira que a lei foi nosso
aio, para nos levar a Cristo, a fim de que fôssemos justificados pela fé. Mas
vindo a fé, não estamos debaixo do aio", e outras passagens mais.
E destas passagens podemos aprender duas coisas - primeiro, que a lei
era o padrão do que Deus exigia do homem, em outras palavras, um padrão de
justiça humana; de maneira que, se um homem fosse capaz de guardar toda a lei,
ele teria sido apenas um homem justo na terra - e como
tal com direito, obviamente, a todas as promessas relacionadas com a obediência
à lei, mas contudo, ele não teria nada mais que uma justiça humana; e, em
segundo lugar, era impossível para o homem guardar a lei, porque ele possuía
uma natureza pecaminosa - ele era carne, e a mente carnal não se sujeita à lei
de Deus, nem tampouco o pode ser (Romanos 8:7). Daí que Deus nunca esperou que
Israel guardasse a lei, mas o propósito dela era dar o conhecimento do pecado.
"Veio a lei para que o pecado abundasse." (Romanos 5:20); "Foi
adicionada por causa das transgressões, até que viesse a semente a quem foi
feita a promessa." (Gálatas 3:19). Portanto, Deus nunca planejou que a
justiça viesse pela lei; porque o apóstolo diz: "se a herança é pela lei,
já não é pela promessa; mas Deus a concedeu a Abraão mediante a promessa."
(Gálatas 3:18). Porque se afirmarmos que a herança veio a nós pela obediência substitutiva
de Cristo à lei, então a herança sim, é pela lei, e isto é precisamente o que o
apóstolo contradiz.
Todavia, não
necessito seguir mais adiante com o tema nesta carta, porque vocês verão agora
de que maneira aprendi que a definição teológica da justificação é inteiramente
inconsistente com as Escrituras; e não tenho quase nenhuma dúvida de que esta
definição brotou de um conhecimento imperfeito da verdadeira posição do crente
em Cristo, isto é, de uma falsa concepção do que é a igreja de Deus. É notório
que muito pouco dos defensores desta doutrina conheça algo acerca das duas
naturezas do crente, ou de que nós estamos assentados nos lugares celestiais em
Cristo (Efésios 1 e 2); ou da realidade da libertação plena e completa do
Cristão, pela morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo. E não é só isto; mas
também lamento ter que acrescentar que esta perspectiva da doutrina é
associada, com frequência, a um erro positivo e perigoso. Deste modo tenho um
livro diante de mim, escrito por um de seus defensores mais populares, no qual
se mantém que o Senhor Jesus foi submetido à ira do Pai durante
Sua vida na terra. E se sustentamos que Ele foi um substituto durante Sua vida
inteira, não vejo como podemos evitar esta conclusão. Isso vos mostrará que o
mais rápido afastamento da verdade pode fazer que acabemos num erro mortal.
Esperando
examinar, na próxima carta, a representação escritural da doutrina, vos saúdo
amados irmãos,
Afetuosamente em
Cristo.
Edward Dennett
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